Sedentarismo, inovação, relacionamento e “DIY”: as revoluções trazidas por “Pokémon Go”


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Jardel dos Santos Silva – Egresso do Curso de Comunicação Social / Jornalismo e Publicidade e Propaganda

A cena já está sendo comum, e tende a se tornar ainda mais, pelas ruas da cidade: crianças, jovens e adultos com os olhos pregados nas telas de seus smartphones. Para um olhar fora do cristal líquido, a ação se desenrola de forma um tanto bizarra: a câmera é apontada para um canto aleatório e, após alguns cliques, a expressão de alegria e vitória se vê estampada nos rostos dos envolvidos. Histeria coletiva? Não, essa nova mania atende por “Pokémon Go”.

Lançado em apenas três países no dia 06/07 deste ano, causando uma onda de ansiedade até estar disponível para o Brasil apenas em 03/08, o jogo mescla a nostálgica saga de captura e treinamento de monstrinhos com conceitos avançados, como geolocalização e realidade aumentada, revitalizando uma franquia existente desde 1995. Isso se deu após a Nintendo, vista por anos como teimosa pela recusa de levar seus bichinhos para os celulares, se unir à Niantic, empresa que já havia levado um destes conceitos para o mundo dos games mobile.

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Entre relatos, muitos inverídicos, sobre pessoas que foram vítimas de crimes durante as caçadas, vídeos de parques inteiros mobilizados na busca de um Pokémon mais raro e um meme todo dedicado ao assunto (o “adultão”, pessoa que se considera madura demais para aderir à tendência), há algumas pequenas grandes mudanças trazidas pelo jogo, que vão contribuindo para todo o buzz ao redor. É sobre essas quebras de paradigmas, mencionadas no título, que vamos tratar:

– Sedentarismo: a imagem clássica, e cada vez mais tida como preconceituosa, dos gamers é alguém sentado diante de uma tela por horas, com toda a ação dos personagens substituindo a agitação de sua própria vida. Depois da febre trazida pela própria Nintendo, de jogos que permitem ao usuário interagir com movimentos em vez de botões e que agora se converte em jogos de dança, esportes etc., os monstros de bolso ajudam a fomentar o tipo de jogo que interage com a realidade, permitindo não somente o exercício, mas a saída de uma inércia social que costumava dialogar com o preconceito em torno dos nerds. Se a Geração Y os fez assumir uma posição em destaque na cultura, “Pokémon Go” pode ser a ferramenta para que esse domínio se estenda aos espaços públicos;

– Inovação: “Pokémon Go” não é o primeiro jogo a incorporar o conceito da geolocalização como parte de sua dinâmica. Criado pela mesma Niantic, “Ingress” é um jogo móvel, lançado no fim de 2013, que coloca os usuários em duas facções, responsáveis por dominar a “matéria exótica”, substância que teria sido descoberta junto ao Bóson de Higgs. Com mecânica e enredo complexos, o jogo criou uma grande comunidade, mas restrita aos amantes de ficção científica. O paralelo com “Pokémon Go” se dá pelos monumentos e pontos turísticos: enquanto “Pokémon Go” os converte em “pokéstops”, locais de obtenção de itens e melhorias, “Ingress” os transforma em pontos onde a tal matéria exótica exala e é função de cada facção dominar esses pontos, com equipamentos que variam desde a extração da energia a armas contra aproximação dos rivais. O “pulo do gato” em Pokémon é aliar a expertise em geolocalização da Niantic com a famosa franquia da Nintendo e a realidade aumentada, expoente moderno do apreço dado à realidade virtual no início da década de 90. Se por um lado a Nintendo aproveitou o apelo dos usuários e seu desejo em ver os pequenos bichos no mundo real, por outro pode estar em busca da redenção por seu maior fracasso, o Virtual Boy;

– Relacionamento: outra imagem cada vez mais destoada dos amantes de jogos é o de seres solitários. Dos ambientes virtuais coletivos e viciantes de clássicos como World of Warcraft, passando pela ação coletiva de Counter Strike e GTA V, até o milionário mundo dos eSports de games como League of Legends e DOTA, já faz algum tempo que jogar videogame significa se integrar a uma comunidade internacional em que o gosto por uma determinada fantasia é o eixo central de amizades, paqueras, alianças e rivalidades. Ao popularizar o mapa do mundo real ao redor como parte do tabuleiro onde se desenrola a ação, “Pokémon Go” torna a interação física com outros jogadores algo mais tangível e necessário que os contatos ocorridos em outras plataformas. Em uma sociedade na qual olhar para a tela do celular já se tornou um símbolo do distanciamento entre as pessoas, o joguinho inovador pode, ironicamente, tornar este hábito o pontapé inicial para uma maior socialização entre os usuários de smartphones;

– DIY (Do it yourself ou faça você mesmo): o que os livros-jogos e os de RPG têm em comum com “Pokémon Go”? Simples: se em outros jogos virtuais há um representante seu na tela apenas respondendo ao seu comando, a caçada pelos monstrinhos te coloca no protagonismo que apenas os sistemas como G.U.R.P.S., D&D, entre outros, havia conseguido. Saem Mario, Sonic, o próprio Ash Ketchum e entra… isso mesmo, você. Vão-se as barras de energia e de “sangue” e entram o seu fôlego e vontade de andar pela cidade. Nada de carruagens, bigas, carros voadores, agora é apenas você, o transporte coletivo, o carro. Intencionalmente, ou não, um lema que tem permeado a internet também vai entrando no mundo dos jogos, fazendo com que toda ação, todo progresso e evolução não dependam apenas da sua capacidade de controlar botões e personagens, mas, sim, da sua própria vontade de imergir neste mundo.

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Assim como já há pais, igrejas e outras associações indicando cautela no uso do app, já há relatos de pessoas vencendo o autismo e a timidez graças ao encontro com outros fãs de Pokémon, o que afasta do jogo o maniqueísmo de avaliá-lo como o melhor jogo da história ou algo que veio para destruir nossa sociedade.

Seja você um otaku, um fã ou um “adultão”, a verdade é que o jogo e sua dinâmica oferecem boas reflexões sobre nossa sociedade e sobre como vemos e percebemos os jogos de videogame e seus fãs. Talvez a grande quebra de paradigma seja notar que os jovens fãs de games cresceram e hoje enxergam o legado deixado por suas paixões às atuais gerações. Conselhos como ter cautela na rua, não ir a locais estranhos e não desperdiçar a vida em um jogo sempre existiram e continuam válidos. O que mudou é que tecnologias como essa devem cada vez mais fazer parte de nossas vidas. Basta saber jogar e viver. E, quem sabe, daqui a pouco, todos nós vamos seguir aquele velho ditado: “temos que pegar todos…”

 

“Vaporeon stampede, Central Park, NY: (multidão abandona seus carros pra caçarem um Vaporeon – Pokémon razoavelmente raro – em meio ao famoso cartão postal de Nova York)





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