Prof. José Pacheco: um mestre e sua nobre missão


Prof. José Pacheco: um mestre e sua nobre missão

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Quando criança, José Pacheco sonhava em ser Engenheiro Eletrônico. Sorte do mundo que ele entrou para a academia se formando pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, tornando-se Mestre Especialista em Leitura e Escrita. Um grandíssimo feito fez com que ele fosse aclamado ao redor do mundo: a criação de uma escola de colaboração que quebraria um modelo de ensino que já dura mais de 200 anos, em que os alunos, crianças e adolescentes, definem quais são suas áreas de interesse e, em grupo ou individualmente, desenvolvem projetos de pesquisa, criando e discutindo a cada ano as regras que serão seguidas pela escola, seus alunos e seus familiares.

No Brasil, o modelo de ensino está sendo replicado desde 2011 pelo Projeto Âncora, um método que não é simples ou barato, mas que já mostra sua eficácia na educação de crianças e adolescentes violentos e/ou com dificuldade de se enquadrar no modelo de ensino aplicado na escola tradicional.

O Prof. José Pacheco estará na UNISUAM para participar do Fórum de Educação dos Países de Língua Portuguesa, que acontecerá nos dias 06 e 07 de novembro de 2015. Para participar do Fórum, inscreva-se no site educacaomoral.org/ibem/forum-novos-rumos/

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Confira abaixo uma entrevista exclusiva para a UNISUAM:

1 – Como não pode faltar em uma entrevista sua, na sua opinião, como o modelo de ensino utilizado na Escola da Ponte pode ajudar a melhorar a realidade social de países com uma divisão de renda desigual?

Não diria que a Ponte criou um “modelo”. Apenas demonstrou a possibilidade de ruptura com um modelo obsoleto de escola, em um contexto social no qual prevalecia uma “divisão de renda desigual”. Devo lembrar que estávamos no final de uma ditadura de quase meio século de duração. O país estava arruinado. Muita gente sobrevivia abaixo do limiar da pobreza. A riqueza estava concentrada em uma pequena parcela da população.

Há quarenta anos, a Ponte provou a possibilidade de romper com o ciclo vicioso da reprodução. Conseguiu que uma maioria de alunos oriundos da pobreza alcançasse a excelência acadêmica e a inclusão social. O seu projeto não deve ser replicado, mas a Ponte deverá constituir fonte de inspiração para um Brasil, que ocupa o segundo lugar no índice de desigualdade.

 

2 – Em todos esses anos como educador, qual foi a sua experiência mais marcante?

Duas foram as mais marcantes: o trabalho voluntário de educador numa leprosaria (na Guiné) e a aprendizagem da cooperação no coletivo da Escola da Ponte. Nos últimos tempos, tenho vivenciado experiências idênticas onde faço voluntariado: a Escola do Projeto Âncora.

 

3 – Na sua opinião, qual é o real papel do professor na sociedade contemporânea?

São múltiplos os papéis e todos hão de diferir daqueles que hoje desempenha. Essencialmente, será um agente de mediação de aprendizagem.

 

4 – O modelo da Escola da Ponte é um conceito definitivo ou, agora um pouco mais distante, o senhor consegue enxergar algo que possa ser melhorado?

O Âncora (um projeto brasileiro feito por brasileiros!) há muito que foi além da Ponte. No seu escasso tempo de vida, já prefigura o aparecimento de uma nova construção social de aprendizagem: a comunidade de aprendizagem.

 

5 – Trazendo mais para perto da realidade brasileira, como o senhor avalia os resultados alcançados pelo Projeto Âncora?

Já é possível verificar uma profunda reelaboração da cultura pessoal e profissional dos profissionais que nele atuam, bem como a prática de uma educação integral. Os efeitos nas aprendizagens são bem visíveis. Mas, o mais relevante é o fato desse projeto ser mais do que um PPP de escola – ele já tomou a forma de um projeto de desenvolvimento local.

 

6 – O que o senhor acha sobre o que muitos chamam de evolução, ou transformação, da Língua Portuguesa, na Internet, com as abreviações errôneas e maneiras “erradas” ou “diferentes” de se escrever uma palavra ou frase?

Considero que corremos o risco de empobrecimento da língua. Mas, não sou profeta de desgraça e quero acreditar que a Internet venha a constituir-se em um instrumento de humanização e de recriação das linguagens.

 

7 – Qual papel o senhor espera desempenhar no mundo com seu modelo educacional inovador, o de fator de mudança ou de reflexão sobre o aprendizado?

O meu papel tem sido e será o de fazer a parte que me cabe. Não me considero autor de um modelo inovador, apenas participei e participo de coletivos de professores que, partindo daquilo que são, ousaram e ousam no exercício da coragem e da coerência.

8 – O que o senhor preparou para sua apresentação no Fórum de Educação dos Países de Língua Portuguesa?

Nada preparei. Busco a autenticidade possível nas intervenções que faço. Parto sempre de perguntas para uma comunicação dialógica. É isso que faço há cerca quarenta anos. É isso o que farei. Sejamos aquilo que desejamos para o mundo.

 

9 – Pode por favor deixar um recado para os educadores da UNISUAM?

As escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores como pessoas. Por isso, se a um velho for permitido dar conselhos, aconselharia coragem e prudência. Coragem para substituir um obsoleto modelo de ensino por práticas coerentes. Prudência para usar a ciência numa práxis transformadora e não usar alunos como se fossem cobaias de laboratório.

 





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