Ensaios sobre a criatividade


Ensaios sobre a criatividade

Creative business idea

Vinícius Ladeira F. Melo – Formado em Comunicação Social /Jornalismo

“Criatividade é apenas conectar coisas.” Steve Jobs

Essas citações vindas de pessoas bem-sucedidas sempre me chamaram a atenção, saber como alguém que eu admiro, ou não, pensa é realmente motivador. Essa semana eu acabei topando com essa citação de Steve Jobs e me flagrei pensando no quanto ela faz sentido e na sua aplicabilidade na vida real. E já que Pokemon é (de novo) a moda do momento, acho válido usá-la para começar a embasar meus argumentos.

Começando pela própria nomenclatura, o nome Pokemon é a junção de duas palavras de origem inglesa, pocket (bolso) e monster (monstro). O conceito do jogo/anime também surgiu da junção de alguns velhos conhecidos dos japoneses, a parte de colecionar monstrinhos, treiná-los e colocar os bichos para duelar vem de uma antiga prática das crianças japonesas de coletar besouros durante o verão e colocá-los em “rinhas” com outros besouros.

Além disso, a própria mecânica básica dos jogos, de explorar um mapa com uma equipe (no caso, seus pokemons), enfrentando batalhas geradas aleatoriamente e com ataques e defesas acontecendo de forma organizada em turnos é uma adaptação de um estilo de game muito característico no Japão, o RPG em turnos.

Curioso pensar no que dá para produzir com essa ideia de remixar referências e juntar coisas que nos agradam. Ainda aproveitando o hype do pokemon, posso citar um tópico do blog “o verso do inverso”, que constantemente pipoca na minha timeline do Facebook, o artigo com o título “E se os pokemon fossem desenhados pelo Tim Burton?”, em que o artista filipino Vaughn Pinpin transforma os simpáticos monstrinhos de bolso em criaturas estilizadas no estilo sombrio característico do Tim Burton.

Não quero me alongar no tema pokemon, principalmente considerando que ele não é o real foco do artigo, e sim a ideia de que a criatividade é (também) criar algo novo da junção de coisas conhecidas. Isso pode ser um trunfo considerando a proximidade imediata que o consumidor tem com aquelas obras originais. Então, a dica que eu dou é, quando se esgotar a criatividade para criar algo completamente novo, tente buscar solução na junção de itens já conhecidos, isso pode acabar virando um exercício de criatividade sem igual.

Vou deixar algumas recomendações sobre o tema, começando pelo estudo “Everything is a Remix”, em que o diretor nova-iorquino Kirby Ferguson fez um grande estudo sobre as inspirações e referências de obras clássicas. Também posso citar o site Hitrecord, do ator Joseph Gordon-Levitt, que interpretou o Robin de “Batman Rises” e o Tom de “500 dias com ela”. Esse projeto visa não só a publicação de conteúdos originais, mas a remixagem deles em obras novas. Clique aqui e leia o artigo do Papo de Homem que explica melhor essa relação.

Não posso esquecer de citar o gênero musical Rap, que ficou famoso por usar samples de músicas mais conhecidas como parte integrante da sua própria musicalidade. O site “Rap Nacional Downloads” faz um apanhado bem interessante sobre isso usando como base os discos dos Racionais Mc’s, expoente máximo do movimento em terras tupiniquins.

criatividade

Mas, aglomerar ideias não é a única forma conhecida para extrair soluções criativas. Às vezes, mudar um olhar sobre o objeto pode te dar uma visão inovadora de aplicação do mesmo. Essa é basicamente a tese de J.P. Guilford, Psicólogo e Pesquisador da Universidade de Indiana, nos EUA, que escreveu, em 1967, a tese “Guilford’s Alternative Uses Task”, que consiste em um “teste de criatividade”, que pode ser aplicado por qualquer pessoa, mesmo sem treinamento prévio. Ele foi elaborado como uma tentativa de mensurar o nível criativo dos envolvidos (embora em uma dessas ironias que só o destino é capaz de criar, mudaram o olhar sobre o teste e, normalmente, o aplicam como uma forma de exercitar a criatividade, ao invés de mensurá-la) e se limita a uma simples pergunta: “Nomeie todos os usos de um tijolo”.

Há quatro componentes para se estabelecer as notas, não vou discorrer sobre todos, mas gostaria de salientar um deles: o de originalidade. Todas as respostas de todos os participantes são contabilizadas e pontuadas da seguinte maneira: as respostas que foram sugeridas por apenas 5% do grupo são consideradas incomuns e valem 1 ponto, já as respostas que só apareceram em 1% do grupo, são consideradas únicas e adicionam mais 2 pontos aos criativos que chegaram àquelas decisões. Moral da história: novos olhares podem fazer da sua solução algo único.

Para finalizar, outra fonte de criatividade é a limitação, quando não temos à disposição todos os recursos necessários para a realização da tarefa, adaptamos o que temos disponível e realizamos (às vezes de maneira análoga, às vezes de maneira improvisada) o que era preciso realizar ou colocando em português bem claro, fazemos uma “gambiarra”. Esse jeitinho brasileiro já foi até tema de um artigo em que a criação de um país é remontada e composta por etnias muito diferentes e toda a complexidade por trás dessa geração de identidade.

Muitas pessoas desprezam essas gambiarras, acreditando se tratar de uma solução ineficiente ou aquém da solução ideal. Juízo de valor à parte, recomendo a análise da “gambiarra” somente como uma solução criativa para um problema. Hitcock mesmo nos ensinou sobre o uso criativo para contornar limitações, sem permissão de usar violência explícita e nem cenas de nudez, acabou por criar uma das cenas mais impactantes do cinema.

Com isso, se a ideia é exercitar a criatividade proponho um autoexercício em um momento de bloqueio criativo. Que tal tentar se limitar de alguma forma? Se estiver escrevendo um texto, que tal não usar os verbos de pensamento, como praticado pelo renomado escritor Chuck Palhaniuk, autor do clássico “Clube da Luta”. Se colocar nessas situações controladas pode ser benéfico, uma vez que você irá se familiarizar com ambientes limitados e como fazer mais com menos. Afinal, o fundador do Twitter é um dos que defendem que limitações obrigam pessoas a serem mais criativas para passar a mesma mensagem. Ele até mesmo criou uma empresa de sucesso apostando nessa limitação.

Enfim, recapitulando, criatividade é uma habilidade e, como tal, ela pode ser treinada e desenvolvida.





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