Compromisso com a verdade


Compromisso com a verdade

Jornalista José Maurício Costa fala sobre os dilemas da profissão

Alunas: Beatriz Máximo, Carolina Ribeiro, Gabriele Leonardo, Manuela Ximenes, Mariana Mortani e Nadine Damasceno | Trabalho produzido como componente da nota de A2 da disciplina Ética na Comunicação, do curso de Jornalismo, ministrada pela professora Vanessa Paiva

Nascido no Rio de Janeiro em 1971, José Maurício Costa é Jornalista. Trabalhou durante 25 anos contando histórias da vida real em redações de jornais diários como O Globo, Extra, Jornal do Commercio, O Dia, Jornal dos Sports e Gazeta Mercantil. No início de 2017 publicou sua ficção de estreia, “Primeira Página – Conflito na Baiana”, um livro com narrativa realista e que mescla ficção e realidade, além de ser um permanente convite à reflexão sobre o comportamento humano e nosso modo de organização social. Na entrevista, José Maurício fala sobre dilemas da profissão, barreiras da comunicação, possibilidade de uma cultura ética melhor e mais.

 

Como você conceitua ética profissional?

Eu diria que é um manual com as normas e códigos que devem nortear o bom exercício de uma atividade profissional.

 

Na prática, quais as principais questões éticas com as quais o Jornalista se depara no ambiente de trabalho?

O Jornalista deve ter seu compromisso primeiro com o social e com a verdade. Um binômio que gera conflitos em muitas situações, muitas vezes inclusive conflitando com seus próprios interesses ou com os interesses da empresa em que ele trabalha.

 

Pode nos contar um pouco sobre dilemas éticos com os quais você teve que lidar ao longo de sua carreira?

Já deixei de publicar matéria por considerar que poderia colocar a vida de pessoas em risco. Mas, já coloquei a minha integridade em risco por considerar importante tornar público determinados fatos. Muitas e muitas vezes deixei de publicar fatos, alguns bastante graves, porque não tinha como prová-los. Uma matéria pode destruir a vida de pessoas e o Jornalista precisa ter responsabilidade.

 

A ética mudou muito desde que você ingressou no mercado? Quais as maiores diferenças entre o Jornalismo da época e o atual?

O código de ética sofre atualizações periódicas, mas os seus pilares são os de sempre. Compromisso com a verdade, com o social, com a obrigação de ouvir todas as partes… O que mudou foi a lógica de mercado. Hoje, há menos tempo para apurar. Vivemos em uma correria para ver quem posta primeiro na internet. Muitos veículos na ânsia de sobreviver à crise buscam a audiência a qualquer custo.  Aí assumem o risco de publicar achismos, fake news e matérias mal apuradas.

 

É possível estabelecer limites éticos claros sem impedir a atividade jornalística?

Se não se respeita a ética não é Jornalismo. Como podemos querer desempenhar o papel de fiscais da democracia, brigar por justiça e pelos direitos do cidadão se não respeitarmos as leis e o nosso próprio código de ética? Jornalista, antes de apontar o dedo, tem que dar exemplo.
Você acredita que, atualmente, o Jornalismo encontra um equilíbrio entre interesse público e interesse do público?

Queira ou não o Jornalismo tem que servir sempre a dois senhores. Ao compromisso ético do Jornalista e aos interesses do veículo de comunicação em que ele trabalha. O dono do veículo é empresário e quer lucro, resultados. É um dilema que todo Jornalista enfrenta. E isso não é novo. O problema é que hoje os veículos noticiosos estão em crise. A internet causou uma revolução na disseminação de informação. E, para sobreviver, muitos veículos, principalmente os que enfrentam mais dificuldades financeiras, estão buscando o que dá audiência. Não deixam de se pautar pelo interesse público, mas eu diria que a balança da maioria está pendendo mais para o interesse do público.
Como você acha que deve ser a relação entre fonte e entrevistador?

Se o Jornalista faz um trato de sigilo com uma fonte deve respeitá-lo. E a lei protege essa relação. Mas, é importante que jamais se esqueça de que o compromisso do Jornalista deve ser com a verdade e com o interesse público. Fonte é fonte, não é amigo. Mantenha uma relação profissional. Desconfie de tudo e de todos. Pode ter certeza de que se estão te passando provas ou informações sigilosas, há interesses ocultos que motivam essas denúncias. A pior coisa que pode acontecer é um Jornalista se permitir ser manipulado por uma fonte.
Em relação ao código de ética, você acredita que ele é essencial ou dispensável ao Jornalista?

É essencial. Se em algum momento um Jornalista vier a cometer um deslize ético, ele tem que saber que o está fazendo e assumir a responsabilidade por isso. O que não dá é para dizer que é Jornalista e depois se justificar com um “eu não sabia que isso era antiético”.

 

Existem barreiras para uma comunicação eficaz? 

Claro que sim. Jornalisticamente falando existem barreiras ideológicas, barreiras econômicas, barreiras políticas, barreiras sociais… Nesse sentido a internet veio bagunçar um pouco esse cenário. Se antes os veículos e Jornalistas decidiam o que, quando e como comunicar, hoje perderam completamente o controle sobre a informação. Os cidadãos estão armados com celulares que filmam, tiram fotos e transmitem em tempo real. Hoje a população é a “grande mídia”.

 

O que você considera necessário para construir uma cultura ética melhor? Como fazer para que as comunicações, de modo geral, tenham mais ética?

Temos que discutir mais ética. Nas escolas, nas faculdades, dentro de casa e no trabalho. O maior problema do Brasil é a crise ética. As pessoas perderam os referenciais do que é certo e do que é errado. As comunicações são um reflexo da sociedade.





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